sábado, 7 de janeiro de 2012

Robert Reid Kalley; 200 anos do "Lobo Calvinista"


Ao escrever a introdução de seu livro The Wolf from Scotland, que foi traduzido para o português com título impróprio de: Jornada no Império (FIEL, 2006), William B. Forsyth disse que Kalley era um ilustre desconhecido até para os mais versados na história das missões, e infelizmente o mesmo se dá para com os seus herdeiros espirituais, os Congregacionais brasileiros. O homem que acentou as bases do evangelho em Portugal e no Brasil, fundou a primeira igreja protestante permanente até hoje em língua portuguesa, precisa ser mais lembrado e imitado entre seus “filhos” na fé. Mas, quem foi este homem chamado de o “Lobo da Escócia”?
Os primeiros anos.
Em 08 de Setembro de 1809, ano em que no mês de Janeiro havia nascido o famoso naturalista Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução, nascia também Robert Reid Kalley, em Mount Flórida, Glasgow, Escócia. Darwin, que nasceu na Inglaterra, e foi educado para se tornar um ministro da Igreja Inglesa, se tornou o grande patrono dos materialistas. Kalley, que na sua mocidade era um médico completamente cético em Kilmarnock, um amante das festas e prazeres mundanos, pelo testemunho de dois de seus pacientes, mais notadamente uma mulher que lhe disse “Leia o livro” (a bíblia), se tornou um grande defensor da fé evangélica.
Convertido e freqüentando a Igreja da Escócia a qual a sua família que era abastada pertencia, começou a ter um grande ardor missionário. Depois de receber um não de uma sociedade missionária, foi aceito por indicação do pastor Congregacional John Ward na Sociedade Missionária de Londres. Mas, pelo fato de sua noiva Margareth Crawford ter saúde frágil não lhe foi permitido exercer seu trabalho ali. Como o desejo em seu coração não se apagava, ele não fraquejou, e pagou seu aprimoramento teológico com vista a ser missionário por conta própria, já que ficando órfão desde cedo, era dono de uma herança considerável.
O pioneirismo em Portugal.
Em 1838 viajou para a Ilha da Madeira, Portugal, em busca de melhor lugar para a recuperação de sua Margareth, estabelecendo-se em Funchal. A idéia era passar o Inverno, mas ao lá chegar Kalley se deparou com tanta ignorância espiritual e pobreza, que logo começou a atender a população carente da ilha. Passou também a realizar cultos numa casa particular, já que não se adaptou a Igreja Anglicana que lá existia.
Em 1839 ele foi consagrado ao ministério pastoral a seu pedido para poder ministrar os ofícios pastorais, e em 1840 construiu um hospital e oferecia tratamento gratuito aos menos favorecidos. Também criou um sistema de escolas grátis, onde o livro texto principal era a Bíblia, sendo esta a primeira rede de escolas de Portugal a oferecer ensino sem custo.
O trabalho dele rendeu bons frutos e angariou tanta fama que nas “Atas da Câmara do Governo Municipal do Governo do Funchal”, de 25 de Maio de 1841, apareceu uma menção de gratidão ao bondoso Doutor (Jornal O Defensor, 24/05/1841).
Logo começaram os protestos. As escolas se multiplicaram e muitas pessoas se reuniam para ouvir o Doutor pregar. Novos Testamentos eram encomendados por ele para serem vendidos para o povo da ilha, e assim a Palavra de Deus era espalhada. Em toda ilha não era difícil encontrar pessoas que já sabiam cantar os “hinos calvinistas”, como chamavam, que eram os Salmos metrificados para o canto como os Reformados faziam. As reuniões que Kalley começou a organizar com os simpatizantes eram sempre ao modo Congregacional, e não ao modo da Igreja da Escócia.
O clero Católico Romano logo começou os seus ataques com palestras e folhetos incitando o povo a expulsar os “hereges calvinistas”. Jornais conservadores lançavam dia a dia acusações contra Kalley. Até poetas da época se engajaram na luta contra o Doutor. Como prova este soneto de Francisco Henrique Moniz Barreto Cabral d’Ornellas:
Ao Doutor Kalley
Eis, Kalley, do teu cisma o resultado,
De Calvino espalhando a vil doutrina,
Da desordem formas-te fatal mina
Entre um povo fiel, e sossegado.
Já por ti vês o sangue derramado;
Vê qual o crime teu, monstro, combina...
Tua seita não é, não é divina,
Só para aliciar tu és comprado.
Foge, foge de nós, abutre infame,
Deixa-nos paz gozar, a Liberdade,
Não queira que mais sangue se derrame.
Ah! Treme dessa pura Divindade,
Que bem dos crimes teus vê negro enxame
Com que queres manchar a humanidade.
O Dr. Kalley foi proibido de exercer a medicina em 1843, tendo que lutar para readquirir este direito novamente. Muitas escolas foram fechadas e Kalley foi ameaçado, teve a casa atacada e foi preso por seis meses.
No domingo 09 de Agosto de 1846, dia de São Bartolomeu, arrebentou uma tremenda revolução na ilha incitada pelos lideres Católicos Romanos. Muitos ataques foram feitos, crentes foram expulsos de suas casas, violentaram mulheres, espancaram pessoas, e houve assassinato. Para não morrer Kalley teve que fugir para a casa do cônsul inglês disfarçado de velhinha. Sua casa foi depredada e queimada.
O homem que levou o evangelho a Portugal agora olha seu sonho e o deixa para trás.
A nova vida no Brasil.
Kalley foi para Londres, mas continuou a ter contato com os irmãos convertidos na Ilha da Madeira, muitos dos quais se refugiaram nos EUA, em Illinois.
O Doutor voltou à Inglaterra, e nesse tempo exerceu um ministério itinerante passando pela Irlanda, Malta e finalmente foi para Beirute, em 1851 para convalescença de sua esposa. Mas, ela veio a falecer ali.
Quando ficou viúvo o Doutor realizou um sonho antigo, explorar a Palestina conhecendo a terra de Jesus. Nesse período ele conhece Sarah Polton Wilson, jovem Congregacional da Igreja em Torquay. Sarah também tinha visão missionária, além de ser hábil poetisa e musicista. Ela veio a ser sua segunda esposa.
Portanto, após a leitura do livro “Sketches of Residence and Travel in Brasil”, do missionário Daniel Parrish Kidder, que muito lhe impressionou, passou um tempo ajudando pastoralmente os refugiados madeirenses em Illinois e resolveu vir ao Brasil.
O casal Kalley chegou ao Rio de Janeiro em 10 de Maio de 1855 se hospedando em hotel antes de arranjarem casa para morar. Foi-lhe apresentada uma propriedade em Petrópolis, chamada Gernhein (lar muito amado), mas que ainda estava ocupada. Os Kalley ficaram com a casa, e antes mesmo de se mudarem, tiveram a casa cedida para ali, em 19 de Agosto de 1855, realizarem a primeira Escola Bíblica Dominical em nosso país. A lição foi ensinada por Sarah a 5 crianças tendo como tema a história do profeta Jonas. Pouco tempo depois Kalley começou uma classe de estudos com negros, um avanço num país de escravos como o Brasil era na época, isso 33 anos antes da Abolição que aconteceu em 1888.
No final de 1855 na casa dos Kalley já funcionava regulamente a Escola Dominical e o culto doméstico. Tudo reservado porque no Brasil a religião oficial era o Catolicismo Romano e era proibido evangelizar. Notando que a seara era vasta, mas faltava obreiros, trouxeram para o Brasil William D. Pitt, jovem inglês que havia sido aluno de Sarah em Torquay, e os crentes madeirenses Francisco da Gama e Manuel Fernandes que já haviam sido suas ovelhas.
Kalley, em sua estratégia evangelística, começou a traduzir e publicar o livro O Peregrino no Jornal Correio Mercantil e Bíblias eram vendidas por seus ajudantes da Gama e Fernandes. Como médico Kalley aproveitava a oportunidade para pregar a Palavra de Deus aos seus pacientes e a obra cresceu.
Não tardou e em 11 de Julho de 1858 foi batizado o primeiro convertido brasileiro: Pedro Nolásco de Andrade, e nesta data também foi criada, com 14 membros Pedro Nolásco, o brasileiro, e os outros portugueses e ingleses, a primeira igreja evangélica brasileira, a Igreja Evangélica Fluminense, pertencente hoje a UIECB.
As perseguições logo começaram, houve prisões dos crentes, violência por parte dos Católicos Romanos, mas com a ajuda de Deus e sem vacilar o “Lobo da Escócia” venceu todas. Fez-se amigo do Imperador D. Pedro II, que era interessado na Terra Santa e Kalley fez palestras para ele sobre o tema que conhecia tão bem. Também teve o apoio de mais pessoas influentes na política brasileira que queriam ver o Brasil uma republica e com liberdade religiosa. Assim, em 1871, ele escrevia que a igreja que começou já estava com 150 membros.
Fruto do trabalho de seu colaborador em Recife, Manoel José da SilvaVianna, Kalley organizou em 19 de Outubro de 1873, com 12 membros, a primeira igreja evangélica de nativos do Nordeste brasileiro, e a segunda do país, a Igreja Evangélica Congregacional Pernambucana.
A volta para sua terra.
Depois de muitas lutas em nosso torrão, deixando um trabalho consolidado e o evangelho espalhado, o Doutor partiu de volta para a Escócia em 02 de Julho de 1876, deixando para seus “filhos” espirituais uma confissão de fé onde estava a súmula de sua teologia: Os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, aceitos e aprovados pela AIECB como sua síntese de fé hoje.
Continuou mantendo contato pastoral com seus irmãos e “filhos” na fé do Brasil, até sua morte no dia 17 de Janeiro de 1888. Quem conduziu o funeral foi seu amigo, o famoso missionário na China Hudson Taylor.
O que dizer de Robert Reid Kalley? Dizer apenas que há homens dos quais o mundo não era digno (Hb. 13:8), Kalley talvez fosse um destes. Nesse ano em que no dia 08 de Setembro se completa 200 anos de seu nascimento, os Congregacionais brasileiros fariam bem se estudassem a vida deste missionário apaixonado por Jesus Cristo e por sua obra, exemplo de dedicação para crentes, e de “cumprir a tarefa de um evangelista” (2Tm. 4:5) para pastores.
Nós Congregacionais temos que dar a honra merecida a nosso pioneiro, e tentar imitar seu trabalho na seara do Senhor que já branqueja para a ceifa.
Robert Reid Kalley, o sangue do Lobo da Escócia mesmo depois de morto ainda clama, quem se espelhará em sua vida, quem atenderá o seu chamado?
Texto publicado no jornal ALIANÇA CONGREGACIONAL

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